Dizem que ler Machado de Assis é entender um pouco daquele Rio de Janeiro em fins de Império e inicio de República. Machado o faz sem se referir diretamente e indiretamente a nenhum evento histórico que norteou aquele época. Seu Rio de Janeiro é o mais destópico possível. Somos conduzidos pelas ruas dessa capital provinciana e pretensiosa, sem ser direto em apontar um evento histórico especifico Machado acerta em cheio o leitor quando lhe sugere tentar entender o Rio só pelas passagens que retrata em situações tão corriqueiras daquele período, em poucas palavras são sintetiazados usos e costumes. Particularmente a cada página eu vou moldado na minha cabeça aquele Rio de Janeiro pelo ponto de vista do autor e suas personagens.
Os personagens são um show a parte. O deboche e descaso de Brás Cubas é dar inveja a qualquer cinico ou politico. Sem meias palavras ou moralismo Brás Cubas se converte numa quase paródia de sua época e cultura. Poucos personagens se permitiriam a compreensão que Brás Cubas tem, enquanto o prórprio não se importa, daí emana sua solidão e melancolia, Sim eu o acho um melancíolico e amargurado com algo, percebido de acordo com o ponto de vista de quem ler. No meu caso eu o acho amargurado por não ter tido a oportunidade de falar aquilo que todos falam, fingir como todos fingem. Ser comum.
Agora Dom Casmurro é um caso a parte. Quem leu, e quem nunca leu, sempre se pergunta "Capitu traiu ou não Bentinho ?" Sinceramente isso não me importa tanto. Como um romance psicológico, Machado o escreve de forma abrangente,infática e sem ser pendante (os personagens dele são assim, agora Machado nunca). Como não rir de Bentinho e suas neuroses, ciúmes e manias. Como não se deleitar a casa descrição de Capitu. Aliás isso é o mais fenomenal, uma descrição mais abrangente de cara ("olhos de ressaca") e outras vão a complementando. É como se Bentinho recordasse dela aos poucos, ou por se tratar de memórias, pode ser entendido como alguém exorcizando seus demônios dos poucos e por isso vai merdendo gradativamente o medo de recordar e descrever. Ao mesmo tempo em que surge a pergunta, o quanto daquilo é real e o quanto é imaginação de Bentinho, vide a dúvida sobre a traição de Capitu.
O que é mais chocante nessa obra ? Fico lá imaginando o pobre Bentinho, sempre apaixonado por Capitu e de repente com a dúvida na cabeça a respeito de sua cornitude. Também me remoe saber como era exatemente o caráter de Capitu. Em nenhum momento Bentinho a idealiza, as tenho a impressão de suas memórias serem o requiem para a sanidade e a perspectiva do ser humano. Sua visão sobre ela transforma-se com o passar do tempo. É uma espiral decrescente do inico ao fim. Nada foi por acaso, ou de uma hora para outra. Penso sobre a traição, sobre o desvairio de Bentinho, o amor deles. Muito embora ache todas as situações de um humor negro impecável, há a tristeza, decepção. Se for lido com o espirito de emoção, é para levar as lágrimas. Se for lido com espirito de Brás Cubas é para rir, nada de gargalhar, apenas rir.
Não li Esaú e Jacó, Memorial de Aires ou Quincas Borba, por falta de tempo e uma certa preguiça. Mas assim que puder irei le-las e quem sabe rir ou me emocionar.
Bem fica aqui minha homenagem a Machado de Assis, e minha recomendação para lerem suas obras. Vale muito a pena.
Beijo na alma e inté

