sexta-feira, 4 de junho de 2010

Contando um conto - PARTE I

Sebastião pensou em como seriam todas as cores do amor alguns instantes antes dela entrar no quarto. Pensou nas músicas do amor, nas poesias, nos dias, pensou em tudo com amor. Mas não conseguiu. Afinal o que ele estava para fazer não envolvia amor, só uma paixão urgente que precisava ser satisfeita. “Dois minutos” foi o que ela havia lhe pedido. Dois minutos que num momento de amor poderiam durar uma eternidade, mas naquele instante era só mais uma espera. Não havia nada de mau nisso, tirando o fato de ter aberto uma brecha por onde Sebastião ousou respirar os ares do pensar. Era inevitável não pensar no porque de estar fazendo aquilo. E mais impressionante sem o apoio ou a espera de alguém, movido por seu próprio desejo e guiado por nada mais do que suas pernas e pelo odor que só pode ser sentido por alguém cheio de desejo. Um odor impregnando ao ar que respiramos, porém só sentido em ocasiões demasiadas urgentes. Um odor que logo após a realização do desejo se esvai e nem lembramos mais com ele era. E talvez essa tentativa de tentar voltar a ele é que nos instigue a sentir desejo novamente.

Só, lá dentro e lá fora, sem ninguém para espera-lo e compartilhar de tal experiência. Para muitos uma finitude perversa, mas para Sebastião uma infinitude até então nova. Era supremo naquele espaço e tempo. Era capaz de ir além só, era capaz de fazer, sair e seguir. Nada de relatar, fantasiar, contar minucias, era até bem simples. Era impossível não pensar. Não, você não deve pensar assim, era um ritual, era crucial, havia toda uma mística milenar que nem mesmo Sebastião num excesso de racionalidade podia romper. Imaginem os deuses, as gerações anteriores, de seus altares observando toda aquela situação e vendo-o desdenhar de tudo aquilo.

Um ato que inspirou histórias, canções, obras de arte, não, por que para ele seria assim tão simples. Talvez seu próprio excesso de racionalidade fosse uma manifestação da crucialidade desse momento, já lera histórias onde muitos agiram assim e na hora se entregaram, com ele não seria diferente.

Como ela era? Que diferença fazia. O que ela pensava? Por que se importar. Talvez se ela estivesse disposta a contar ele até ouvisse. Mas não era a situação para isso. Mas quem sabe um dia, uma hora ou uma noite. Pânico. Como poderia fazer isso sem saber mais nada dela. Sair, correr, despistar. Calma Tião, não é para tanto. Tente ser igualmente agradável. Garanto que ela será também. Passos, não há mais ninguém, só pode ser ela, como passam rápido dois minutos quando estamos nos divertindo, não é mesmo Tião. Agora ele a vê, não como ela é, mas como ele quer que seja. Ah, olha o aroma, ele procurou por isso o dia, a tarde, a noite quase toda. Mas confortável e seguro impossível.

Viu não falei, se entregou se deixou levar. Era tudo isso que ele queria. Para que se encucar. Tem horas onde o deixar levar é essencial. Pronto. Satisfeito? Claro, não tinha por que não estar. Seja educado, cumprimente e saia, discreto, mas sempre ele sorri, é incorrigível. Uma vez ele leu que bastava isso para se ficar o resto do dia triste. Mas era de noite, ainda ia demorar para amanhecer, não havia um dia, só a metade de uma noite. Então tristeza era algo impossível de ser sentido naquele momento.