Rir. Rir muito. Loucamente, sem vergonha nenhuma. Era essa a vontade que Sebastião tinha toda vez que olhava para ela. Mas não era rir de deboche, para inferioriza-la. Era rir do seu jeito, ou melhor da sua falta de jeito, da sua fala, igualmente sem jeito. Eu não sabia por que mas havia muita graça nela. Porém só de pensar que alguém poderia rir dessas mesmas coisas, mas com o intuito de curtir uma com a cara dela, ele se emputecia. Não achava certo.
Ela a via somente umas duas vezes por semana, era advogada, ou como diziam, doutora. Tinha duas pós graduações, era especialista em direito do trabalho. Mas sabe aquela pessoa que você olha e não dá nada por ela. Pois era esse o tipo dela, certo Sebastião? Sempre muito simpática, bem vestida e cheirosa. Ah, seu cão farejador, cheiros lhe tiram do sério. Seria aquele cheirinho que só é sentido em algumas ocasiões especiais. Brincadeira. Prossiga. Ficava imaginando ela nas audiências, ou lhe dando com algum casca grossa. Não sei a sua idade, mas aparentava ter entre 30 e 35 anos. Quando colocava os óculos parecia mais nova. Sempre carregada de pastas e papeis. Não gostava de incomodar ninguém. Entrava manso nas salas, isso era uma das partes mais engraçadas, nunca vi uma advogada tão contida. Não gostava de incomodar ninguém. Ela não tinha nem ajudantes, todos os poucos que tinha contato com ela nutriam muito respeito por ela. Ele, que a via pouco, nutriam talvez mais do que isso.
Rir descaradamente. Sorrir suavemente logo depois. Respectivamente as primeiras e segundas impressões de um contato com ela. Apesar da idade dela era inevitável a vontade de não querer lhe dar a mão para ele não cair de repente atabalhoada de pastas de processos, e para que outros não rissem dela com deboche. Conversar com ela, próximo, lógico, quero sentir aquele perfume, isso se não for cheiro natural dela. Rir de alguma coisa sem nexo que ela poderia falar. Deixa-la encabulada para logo depois lhe dar um abraço e um beijo e chama-la de boba. Se ela fosse casada, que pelo menos seu marido a tratasse bem assim. Sebastião, a graça talvez estivesse na pureza que você tenha atribuído a ela. Num lugar de tantas pessoas saturadas, ele talvez fosse a que menos aparentasse esse desgaste. Ela não se encaixava naquele ambiente, com aquelas pessoas. Era felicidade que sentia quando a via. Não rir com ela e sim rir para ela e com ela.
Muitas vezes me flagrei pensando em dizer. “Ei, eu também me sinto um peixe fora d´água aqui. Vamos fugir. Pode deixar seguro a sua mão para você não cair.” .Ridículo. Mas era tão educada que o máximo que poderia fazer seria rir e dizer um não muito gentil. Mas mesmo assim eu ainda acharia graça, mesmo assim meu apreço por ela continuaria.
Ela entrou na sala, bem devagar. Encostou no biombo que separa minha mesa da do chefe. Perguntou baixinho se ele estava lá, fez gestos (ou tentou fazer). Só disse que não e sorri. Ela perguntou se podia imprimir uns papéis. Mas é claro que pode. Lhe indiquei um micro onde poderia fazer. Ela está com uns problemas. Precisa de ajuda. Claro que vou ajudar. Claro que vou sentir seu perfume. Claro que vou puxar assunto. Claro que depois vamos fugir.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Contando um conto - PARTE I
Sebastião pensou em como seriam todas as cores do amor alguns instantes antes dela entrar no quarto. Pensou nas músicas do amor, nas poesias, nos dias, pensou em tudo com amor. Mas não conseguiu. Afinal o que ele estava para fazer não envolvia amor, só uma paixão urgente que precisava ser satisfeita. “Dois minutos” foi o que ela havia lhe pedido. Dois minutos que num momento de amor poderiam durar uma eternidade, mas naquele instante era só mais uma espera. Não havia nada de mau nisso, tirando o fato de ter aberto uma brecha por onde Sebastião ousou respirar os ares do pensar. Era inevitável não pensar no porque de estar fazendo aquilo. E mais impressionante sem o apoio ou a espera de alguém, movido por seu próprio desejo e guiado por nada mais do que suas pernas e pelo odor que só pode ser sentido por alguém cheio de desejo. Um odor impregnando ao ar que respiramos, porém só sentido em ocasiões demasiadas urgentes. Um odor que logo após a realização do desejo se esvai e nem lembramos mais com ele era. E talvez essa tentativa de tentar voltar a ele é que nos instigue a sentir desejo novamente.
Só, lá dentro e lá fora, sem ninguém para espera-lo e compartilhar de tal experiência. Para muitos uma finitude perversa, mas para Sebastião uma infinitude até então nova. Era supremo naquele espaço e tempo. Era capaz de ir além só, era capaz de fazer, sair e seguir. Nada de relatar, fantasiar, contar minucias, era até bem simples. Era impossível não pensar. Não, você não deve pensar assim, era um ritual, era crucial, havia toda uma mística milenar que nem mesmo Sebastião num excesso de racionalidade podia romper. Imaginem os deuses, as gerações anteriores, de seus altares observando toda aquela situação e vendo-o desdenhar de tudo aquilo.
Um ato que inspirou histórias, canções, obras de arte, não, por que para ele seria assim tão simples. Talvez seu próprio excesso de racionalidade fosse uma manifestação da crucialidade desse momento, já lera histórias onde muitos agiram assim e na hora se entregaram, com ele não seria diferente.
Como ela era? Que diferença fazia. O que ela pensava? Por que se importar. Talvez se ela estivesse disposta a contar ele até ouvisse. Mas não era a situação para isso. Mas quem sabe um dia, uma hora ou uma noite. Pânico. Como poderia fazer isso sem saber mais nada dela. Sair, correr, despistar. Calma Tião, não é para tanto. Tente ser igualmente agradável. Garanto que ela será também. Passos, não há mais ninguém, só pode ser ela, como passam rápido dois minutos quando estamos nos divertindo, não é mesmo Tião. Agora ele a vê, não como ela é, mas como ele quer que seja. Ah, olha o aroma, ele procurou por isso o dia, a tarde, a noite quase toda. Mas confortável e seguro impossível.
Viu não falei, se entregou se deixou levar. Era tudo isso que ele queria. Para que se encucar. Tem horas onde o deixar levar é essencial. Pronto. Satisfeito? Claro, não tinha por que não estar. Seja educado, cumprimente e saia, discreto, mas sempre ele sorri, é incorrigível. Uma vez ele leu que bastava isso para se ficar o resto do dia triste. Mas era de noite, ainda ia demorar para amanhecer, não havia um dia, só a metade de uma noite. Então tristeza era algo impossível de ser sentido naquele momento.
Só, lá dentro e lá fora, sem ninguém para espera-lo e compartilhar de tal experiência. Para muitos uma finitude perversa, mas para Sebastião uma infinitude até então nova. Era supremo naquele espaço e tempo. Era capaz de ir além só, era capaz de fazer, sair e seguir. Nada de relatar, fantasiar, contar minucias, era até bem simples. Era impossível não pensar. Não, você não deve pensar assim, era um ritual, era crucial, havia toda uma mística milenar que nem mesmo Sebastião num excesso de racionalidade podia romper. Imaginem os deuses, as gerações anteriores, de seus altares observando toda aquela situação e vendo-o desdenhar de tudo aquilo.
Um ato que inspirou histórias, canções, obras de arte, não, por que para ele seria assim tão simples. Talvez seu próprio excesso de racionalidade fosse uma manifestação da crucialidade desse momento, já lera histórias onde muitos agiram assim e na hora se entregaram, com ele não seria diferente.
Como ela era? Que diferença fazia. O que ela pensava? Por que se importar. Talvez se ela estivesse disposta a contar ele até ouvisse. Mas não era a situação para isso. Mas quem sabe um dia, uma hora ou uma noite. Pânico. Como poderia fazer isso sem saber mais nada dela. Sair, correr, despistar. Calma Tião, não é para tanto. Tente ser igualmente agradável. Garanto que ela será também. Passos, não há mais ninguém, só pode ser ela, como passam rápido dois minutos quando estamos nos divertindo, não é mesmo Tião. Agora ele a vê, não como ela é, mas como ele quer que seja. Ah, olha o aroma, ele procurou por isso o dia, a tarde, a noite quase toda. Mas confortável e seguro impossível.
Viu não falei, se entregou se deixou levar. Era tudo isso que ele queria. Para que se encucar. Tem horas onde o deixar levar é essencial. Pronto. Satisfeito? Claro, não tinha por que não estar. Seja educado, cumprimente e saia, discreto, mas sempre ele sorri, é incorrigível. Uma vez ele leu que bastava isso para se ficar o resto do dia triste. Mas era de noite, ainda ia demorar para amanhecer, não havia um dia, só a metade de uma noite. Então tristeza era algo impossível de ser sentido naquele momento.
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