sexta-feira, 9 de julho de 2010

Contando um conto - PARTE II

Rir. Rir muito. Loucamente, sem vergonha nenhuma. Era essa a vontade que Sebastião tinha toda vez que olhava para ela. Mas não era rir de deboche, para inferioriza-la. Era rir do seu jeito, ou melhor da sua falta de jeito, da sua fala, igualmente sem jeito. Eu não sabia por que mas havia muita graça nela. Porém só de pensar que alguém poderia rir dessas mesmas coisas, mas com o intuito de curtir uma com a cara dela, ele se emputecia. Não achava certo.

Ela a via somente umas duas vezes por semana, era advogada, ou como diziam, doutora. Tinha duas pós graduações, era especialista em direito do trabalho. Mas sabe aquela pessoa que você olha e não dá nada por ela. Pois era esse o tipo dela, certo Sebastião? Sempre muito simpática, bem vestida e cheirosa. Ah, seu cão farejador, cheiros lhe tiram do sério. Seria aquele cheirinho que só é sentido em algumas ocasiões especiais. Brincadeira. Prossiga. Ficava imaginando ela nas audiências, ou lhe dando com algum casca grossa. Não sei a sua idade, mas aparentava ter entre 30 e 35 anos. Quando colocava os óculos parecia mais nova. Sempre carregada de pastas e papeis. Não gostava de incomodar ninguém. Entrava manso nas salas, isso era uma das partes mais engraçadas, nunca vi uma advogada tão contida. Não gostava de incomodar ninguém. Ela não tinha nem ajudantes, todos os poucos que tinha contato com ela nutriam muito respeito por ela. Ele, que a via pouco, nutriam talvez mais do que isso.

Rir descaradamente. Sorrir suavemente logo depois. Respectivamente as primeiras e segundas impressões de um contato com ela. Apesar da idade dela era inevitável a vontade de não querer lhe dar a mão para ele não cair de repente atabalhoada de pastas de processos, e para que outros não rissem dela com deboche. Conversar com ela, próximo, lógico, quero sentir aquele perfume, isso se não for cheiro natural dela. Rir de alguma coisa sem nexo que ela poderia falar. Deixa-la encabulada para logo depois lhe dar um abraço e um beijo e chama-la de boba. Se ela fosse casada, que pelo menos seu marido a tratasse bem assim. Sebastião, a graça talvez estivesse na pureza que você tenha atribuído a ela. Num lugar de tantas pessoas saturadas, ele talvez fosse a que menos aparentasse esse desgaste. Ela não se encaixava naquele ambiente, com aquelas pessoas. Era felicidade que sentia quando a via. Não rir com ela e sim rir para ela e com ela.

Muitas vezes me flagrei pensando em dizer. Ei, eu também me sinto um peixe fora d´água aqui. Vamos fugir. Pode deixar seguro a sua mão para você não cair.” .Ridículo. Mas era tão educada que o máximo que poderia fazer seria rir e dizer um não muito gentil. Mas mesmo assim eu ainda acharia graça, mesmo assim meu apreço por ela continuaria.

Ela entrou na sala, bem devagar. Encostou no biombo que separa minha mesa da do chefe. Perguntou baixinho se ele estava lá, fez gestos (ou tentou fazer). Só disse que não e sorri. Ela perguntou se podia imprimir uns papéis. Mas é claro que pode. Lhe indiquei um micro onde poderia fazer. Ela está com uns problemas. Precisa de ajuda. Claro que vou ajudar. Claro que vou sentir seu perfume. Claro que vou puxar assunto. Claro que depois vamos fugir.

Um comentário:

Alery Correa disse...

Isso tá com cara de história baseada em fatos reais...rs
De qualquer forma, simplesmente fantástica a forma como você descreveu as sensações do personagem Sebastião. Muito bom mesmo.